

A exposição Aldemir em casa é uma celebração do desenho em Aldemir Martins, através da apresentação de esboços, cadernos de estudo, desenhos sobre papel e uma pintura-desenho em nanquim sobre tela. O desenho deu ao artista cearense, o prêmio máximo da Bienal de Veneza, em 1956 e grande reconhecimento internacional. As obras da mostra na Choque Cultural datam de 1948 a 1968, com algumas exceções. Estão lá, os primeiros esboços de gatos, desenhos de Cora em casa, um caderno da época em que o artista viveu em Roma e uma parede com 7 desenhos que perfazem uma linha cronológica da filha, Mariana Martins – que é, também, artista e curadora da exposição. “Através de uma escolha muito pessoal dos desenhos presentes nessa mostra, eu quis iluminar a personalidade do trabalho do meu pai, expressa na precisão e fluidez do gesto, na intimidade com a pena e o pincel, no rigor do pensamento e no prazer do traço”, explica Mariana.



A exposição “Aldemir em casa”, como o título sugere, aborda o fazer do artista num contexto de intimidade. Meu pai desenhava todos os dias, o tempo todo, no quarto ou na sala, conversando com amigos ou quieto no seu silêncio pessoal. A imagem dele desenhando vem acompanhada do barulho da pena riscando o papel e do cheiro de nanquim. O gesto elegante e fluido que resultava num traço longo e curvo convivia com a rispidez das hachuras rápidas tracejadas com vigor. Eu procurei colocar lado a lado muitas das nuances gestuais que o cotidiano do Aldemir em casa me propiciou observar. As obras expostas formam um conjunto cujo núcleo principal é o exercício do desenho nas mais diversas abordagens, seja em trabalhos de elaboração complexa e densas, seja de mínimos desenhos de pouquíssimos traços. Não distingui esboços, rabiscos, estudos ou desenhos aparentemente mais bem acabados: para Aldemir não havia nenhuma hierarquia entre os desenhos feitos no papel que forrava a mesa de trabalho daqueles produzidos num papel 100% algodão ou num Schoeller martelado: ambos eram dignos de serem bem emoldurados e expostos.
Aldemir em casa é uma exposição de retratos: principalmente retratos da minha mãe – Cora – e meus. A escolha privilegiou a época que vai do final dos anos 40 até meados dos 60, alguns me retratando nenê de colo e da minha mãe ainda grávida. Espero que essa abordagem intimista e focada no desenho contribua no estudo da obra de Aldemir, mesmo que numa exposição de poucos, mas preciosos trabalhos.
São Paulo, 24 de novembro
Texto de Mariana Pabst Martins

Serviço: Aldemir em casa
Endereço: Alameda Sarutaiá 206, Jardim Paulista
Horário: de terça-feira a sábado, das 11 às 18 horas.
A mostra segue até dia 20 de janeiro. A galeria estará de recesso do dia 23/12/22 ao dia 10/01/23.
