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Sobre a galeria
fachada da galeria por Carlos Dias
A Choque é uma galeria de graffiti?
Não, a Choque é uma galeria de arte contemporânea que presta atenção nas novas linguagens usadas pelos jovens urbanos. Hoje mais da metade da população do planeta vive em cidades, a maioria em grandes metrópoles, tendo à sua disposição incomparáveis recursos de comunicação. Era de se esperar que desse ambiente completamente inusitado surgissem novas linguagens e, por conseqüência, novos gêneros artísticos: graffiti, tatuagem, video clipe, arte digital, mangas, animes etc. Ao conjunto dessas novas formas de expressão damos o nome de arte urbana. Em inglês, usa-se street art.
Por que criar uma galeria de arte urbana?
Na verdade, a Choque começou como uma editora. Nossa vontade era editar gravuras dos jovens e talentosos artistas com quem trabalhávamos através de marcas de street wear e do nosso estúdio de tatuagem. Mas, ao criar essa editora, percebemos que não havia espaços nos quais os trabalhos desses artistas pudessem ser apresentados com a empolgação adequada.Na última década surgiu uma audiência inteiramente nova, formada por jovens que gostam da arte proposta pelos grafiteiros, tatuadores e designers da sua geração. Mas que não se sentem à vontade nos ambientes “clean” e monumentais das galerias e dos museus tradicionais. Que não se atraem pela apresentação “espetacularizada” proposta por essas instituições e nem pelo excesso de teoria que as envolve. As novas gerações têm um compromisso diferente e muito profundo com a arte, bem exemplificado pela coragem de marcar-se para sempre com um desenho no próprio corpo ou de instalar num local público uma pintura que poderá ser apagada no dia seguinte. Trata-se de um envolvimento mais emocional do que mental.

interior, foto Lost.art.br
Por que a Choque não é um cubo branco?
Por que acreditamos que não exista apenas um modo de se apresentar arte.Queríamos que os jovens, nossa principal audiência, se envolvesse mais com a obra exposta. Durante 2 anos, fizemos uma série de workshops com nossos artistas, nos quais experimentamos diferentes modos de apresentação de arte dentro do nosso espaço expositivo. Pinturas e desenhos coletivos, pintura feita diretamente nas paredes, instalações, site spacific, edições artísticas originais, tudo isso num sobrado de construção tipicamente operária, formado por salas pequenas, de arquitetura nada imponente. Nossas experiências transformaram a Choque numa tese sobre uma nova maneira de apresentar arte para uma nova audiência.
Quem freqüenta a Choque?
A freqüência tem, hoje, a mesma composição que tinha no início. Artistas, jornalistas, curadores e colecionadores se misturam a uma garotada bem jovem, que é a alma do projeto. É muito inspirador receber um garoto que vem contar que viu no ebay um trabalho que ele comprou por R$300 valendo três ou quatro vezes mais agora. Ele está começando a pensar a sua coleção como um investimento e isso acontece naturalmente, como com a sua coleção de sneackers ou a de bonés.
Beatriz Milhazes e Adriana Varejão na Choque, em 2006
A Choque é uma galeria “underground”?
Nossa intenção nunca foi ficarmos escondidos no underground. Nós viemos do underground por que tudo o que é novo vem de lá, as coisas não nascem no mainstream. Mas nós nunca deixamos de dialogar com o mainstream. Em 2006, há apenas dois anos com as portas abertas ao público, nós e a respeitadíssima galeria Fortes Vilaça nos juntamos num intercâmbio de artistas e públicos. Nossos artistas apresentaram suas obras e pintaram as paredes de lá, enquanto renomados artistas da Fortes Vilaça fizeram obras especiais e instalações aqui. Ernesto Neto fez um pôster descartável, Beatriz Milhazes um par de adesivos, Leda Catunda uma obra efêmera numa das paredes da galeria e, assim por diante, foram intervindo Vik Muniz, Janaina Tschape, Luiz Zerbini, Adriana Varejão, Tiago carneiro da Cunha, Érika Verzutti e Mauro Piva. Esse evento, inusitado e surpreendente, chamou a atenção da mídia e do grande público para os novos artistas que estávamos mostrando e, também, para o novo mercado que estávamos descobrindo.

A Choque tem uma audiência internacional?
Desde o início, uma boa parcela (50%) do que a Choque comercializa é exportada, tanto de gravuras quanto de originais. Importantes parcerias e associações nos tem garantido acesso ao mercado externo, que é muito interessado no que temos apresentado. Hoje, estamos mais presentes nos Estados Unidos, Inglaterra, França e Espanha.Por exemplo, em 2006 iniciamos um programa de intercâmbio com a galeria Jonathan Levine, de Nova Iorque, que trabalha com artistas e público semelhantes aos da Choque. Temos mostrado continuamente artistas brasileiros lá e trazendo americanos para cá, com sucesso de crítica e público para ambas as galerias. Na Inglaterra, desde 2005 temos uma parceria com o escritor britânico Tristan Manco, que tem entre seus vários títulos lançados, o livro Graffiti Brasil (Thames and Hudson, 2005). Essa parceria resultou na criação do site choquecultural.co.uk, responsável pela distribuição mundial das nossas gravuras e no início de um ciclo de exposições dos nossos artistas na Inglaterra.
Como a Choque se relaciona com os seus artistas?
Nós acreditamos no talento intuitivo e damos especial atenção à garra com que nossos artistas praticam a arte. Muitos dos nossos artistas não têm uma educação formal em arte, são auto-didatas ou aprenderam nas ruas e estúdios de tatuagem, pintando e desenhando com seus colegas nas ruas, num autêntico laboratório contemporâneo de arte. Mas apesar de darmos muita atenção aos aspectos emocionais, nós também investimos no seu aperfeiçoamento profissional. Nós estamos todo o tempo estudando e aprendendo como lidar com suas obras. Não apenas os trabalhos que são colocados nas paredes, mas principalmente, com a administração das suas carreiras, trajetórias, suas relações com parceiros, colecionadores, público e com outras instituições. A inserção de cada artista no mercado de arte exige um projeto específico e é isso que estamos fazendo, separadamente, com cada um.
O que os artistas da Choque trazem de novo?
Os artistas da Choque fazem parte de uma geração que está escrevendo uma página importante da história da arte contemporânea, no Brasil e no mundo. Os artistas que a nossa curadoria tem escolhido para mostrar estão redescobrindo um valor meio esquecido pela arte das últimas décadas: o carisma. Usando a própria intuição, pintando com emoção, se envolvendo de corpo e alma com a audiência. São artistas que saíram do aconchego do atelier e foram de encontro ao público para travar um contato direto e corajoso. Mostrar a sua arte num muro exige muita auto-segurança e um grande respeito ao público, mesmo ao mais simples e inculto transeunte. Essa segurança vem exatamente desse exercício de aproximação com a audiência, do desejo de emociona-la, de faze-la rir, chorar, enraivecer.
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Sobre graffiti

graffiti de Titi Freak na Liberdade, São paulo
Graffiti é arte?
Sim. Tecnicamente, o graffiti pode ser pintura, instalação, site specific, performence, land art, arte efêmera, entre outras possibilidades. Pode ser feito individual ou coletivamente. Em suportes estáticos, como um muro ou em trens que correm por várias estações. São muitos artistas e propostas de trabalho que se vê espalhadas pelas ruas de todo o mundo, hoje.
Mesmo que já tenha sido parcialmente aceito pelas comunidades e autoridades dos centros urbanos mais esclarecidos, o graffiti ainda é uma manifestação caracteristicamente subversiva, tanto no sentido artístico quanto no legal. Pois a liberdade de escolha do local em que se dará a intervenção não se pauta pela conveniência e sim, pelo impacto comunicativo e expressivo pretendido pelo artista, o que, muitas vezes, o leva de encontro ao proibido.
Naturalmente afastado das galerias e museus, o graffiti se torna uma alternativa à própria arte contemporânea já estabelecida, que é difundida no mercado e institucionalmente. A capacidade de transformar os ambientes urbanos confere ao graffiti a força expressiva e comunicativa que o coloca entre as artes mais populares e difundidas entre os jovens, hoje em dia. Aliás, historicamente a mais jovem audiência já conquistada por uma arte plástica.

stencil do Banksy em Londres, protegido por um painel de acrílico
Qual a relação entre graffiti e pintura?
É mesmo intrigante como a pintura, uma arte já meio desprestigiada ou, pelo menos constantemente questionada no meio artístico tradicional, pudesse ressurgir com todo esse carisma de amplitude global.
O graffiti é um gênero pictórico muito especial e muito popular, principalmente entre os jovens. O que vemos são várias gerações pintando as ruas desde os anos 70. São artistas profissionais e amadores, diletantes ou simplesmente vândalos que deixam suas marcas nas paredes de cidades por todo o mundo.
A descoberta do spray pode ser uma das chaves para se entender o processo de identificação do jovem com o graffiti. Havia muito tempo que não surgia uma nova ferramenta na pintura. O spray é rápido, preenche as superfícies mais irregulares com muita facilidade e é bem resistente à ação do sol, da chuva e do tempo. Essas peculiaridades, sem dúvida, foram determinantes para a popularização do gênero.
Ser rápido significa poder pintar em lugares proibidos, preenchendo grandes extensões de parede num curto espaço de tempo, ou seja, antes da polícia ou dos seguranças chegarem. E a resistência do spray às intempéries permite que se faça pintura fora de ambientes fechados, ou seja, capacita os novos pintores a mostrarem sua arte diretamente para o seu público, nas ruas, independentes de museus e galerias.
Hoja, depois de mais de três décadas de atividade, além do spray, outras técnicas têm sido incorporadas ao graffiti, por exemplo o paulistano ‘rolinho’, que é muito usado em todo o mundo. Durante os anos 90, mais e mais paulistanos pintavam nos muros da cidade. Como a lata de spray é relativamente muito cara para se usar extensivamente em grandes painéis, os brasileiros adaptaram a tinta látex, mais barata, mas ao invés do pincel optaram pelo uso dos rolos de espuma, principalmente para fazer os fundos e bases das pinturas, deixando apenas os contornos para o spray.
O espírito experimental que se estabeleceu entre os artistas mais jovens que fazem graffiti atualmente, abriu de vez a porta para outros materiais, ferramentas e técnicas. Giz de cera, colagem, entalhes e até mesmo o pincel e a tinta a óleo podem ser encontrados no graffiti contemporâneo.

o artista Carlos Dias utiliza muitas técnicas em seus graffiti
Qual a relação entre o graffiti e o Muralismo Mexicano?
O Muralismo Mexicano não é uma referência direta para os grafiteiros, mas existe uma correspondência histórica sim. O graffiti contemporâneo teve um importante momento de popularização durante os anos 70, a partir de certos acontecimentos em Nova York. O principal deles foi o surgimento do Hip Hop, movimento cultural que envolveu toda uma geração de jovens dos bairros mais pobres da cidade, cheios de problemas de violência racial. O Hip Hop era a voz das populações juvenis negra e latina, então tão segregadas.
No início dos 70 começaram a surgir os já famosos trens grafitados em Nova York, sobre os quais Baudrillard falou de forma tão esclarecedora. O que se via então eram letras entrelaçadas pintadas com spray e, sem dúvida essa é uma imagem icônica do graffiti da época. Mas além das letras, havia também os painéis pintados principalmente por porto-riquenhos, estes mais figurativos e com forte inspiração “chicana”. Essa influência latina é natural e pode ser mais notada na Costa Oeste, onde a presença mexicana é permanente. Lá, a pintura mural de caráter religioso ou popular nunca deixou de estar presente nos muros dos “barrios” californianos.
O graffiti Nova Yorkino promoveu a fusão entre a cultura negra, de influência islâmica, que reverencia o arabesco e a letra, e a cultura latina, de influência latino-caribenho, figurativa, de temática mais social, esta sim parente próximo do Muralismo Mexicano.
Graffiti é só pintura?
Não. O graffiti é, antes de tudo, uma intervenção na paisagem urbana. A escolha do local onde será colocada uma pintura é tão importante para o grafiteiro quanto a própria pintura. No trem para ser vista em movimento por todas as estações, nos muros para ser vista do carro, embaixo de viadutos par ser vista pelos mendigos locais ou em lugares escondidos para ser vista apenas através de fotos.
A colocação do graffiti é sempre uma escolha significativa. Os bons artistas que fazem graffiti encontram balanços surpreendentes entre a pintura e o seu entorno. Às vezes uma pintura extremamente delicada, de traços finos, coloração sofisticada e temática lírica se torna muito expressiva em contraste com a decadência de um muro sujo, descascado, velho e abandonado.
O artista urbano pensa frequentemente na instalação, no site specific e até mesmo na dimensão performática da sua intervenção. Basta pensar que grande parte dos graffiti são realizados em locais proibidos e sobre condições de trabalho muito difíceis. Pode-se dizer que uma das mais cultuadas características do graffiti é a “adrenalina” da atividade, o perigo envolvido na ação, os lugares proibidos, a velocidade com que se faz o graffiti, a dificuldade de acesso que valoriza o trabalho… Essa dimensão performática é, inclusive, o que faz essa atividade tão querida pelos mais jovens.

o artista Zezão pintando no rio Tietê, em São Paulo
Lugar de graffiti é na rua?
Sim, claro. A rua é o próprio suporte do graffiti. Quando alguém encomenda um trabalho para ser feito dentro da casa de alguém, deixa de ser graffiti. É uma questão simples de nomenclatura, de dar nomes aos bois. Chamamos de cinema a projeção de imagens fotográficas numa tela grande, assim como chamamos de graffiti as pinturas feitas no espaço público urbano. Portanto, o graffiti só existe na rua mesmo.
Não é a primeira vez na história da arte que se usa a cidade como suporte. Brasília é um bom “exemplo de cidade-museu” com sua exposição permanente de prédios esculturais. Roma é um outro belo exemplo de “cidade-museu” com arte assinada em cada pedra do chão. A arte pública, geralmente, é fomentada pelo próprio Estado que constrói monumentos, mausoléus, encomenda fontes, esculturas etc.
O graffiti também é arte pública, mas feita à revelia do Estado. Ainda hoje se discute se graffiti é arte ou mero vandalismo, uma discussão arcaica… As ações dos governos exemplificam essa confusão: vão do incentivo e patrocínio à proibição e combate feroz! Às vezes num mesmo governo, pode-se observar ambas as atitudes, vide a atual prefeitura da cidade de São Paulo.

graffiti de speto no túnel da paulista
Graffiti não é vandalismo?
Sim e não. Para essa pergunta não existe uma resposta que não seja relativa ao contexto no qual esse ou aquele graffiti se insere. Grosso modo, sair pintando muros que cercam propriedades privadas sem permissão é um ato de vandalismo, sem dúvida. Interferir na paisagem urbana sem o aval da comunidade ou sem que se tenha aprovado um projeto de intervenção pelos órgãos públicos competentes não pode ser considerado um ato civilizado.
Agora, se contextualizarmos um pouco, a resposta não será tão exata. Por exemplo, na cidade de São Paulo a propriedade privada é quase sempre muito protegida, seja por grades, lanças, cercas elétricas ou paredes. Ocorre com freqüência nos deparamos com muros altíssimos, desproporcionais à largura das calçadas, quase sempre subdimensionadas. Nesse contexto, uma delicada pintura de um bom artista em tal muro significará um alerta sobre a desumanização que atinge o espírito de quem habita essa metrópole. Nesse contexto, o graffiti surge para questionar os limites entre o privado e o público na urbe.
É bem complicado mesmo compreender até que ponto é legal um proprietário construir um muro agressivo aos olhos de um artista e, por outro lado, qual o direito que esse artista tem de tentar mostrar para os outros que aquele muro é que passou dos limites. Talvez aí resida a empatia do graffiti com o público de cidades com problemas de urbanismo, nas quais as fronteiras entre o público e o privado não sejam muito equilibradas e justas. E, talvez, nessa dimensão política do graffiti, resida a sua importância histórica.

expo caçamba em frente a galeria choque cultural, 2005
Qual a diferença entre graffiti e pichação?
Numa visão simplista, costuma-se associar a pichação ao vandalismo inconseqüente, em enquanto os graffiti seriam obras de arte, realizadas com autorização e competência. Em geral a pichação está mais focada na atividade, como “subir mais alto”, “fazer o maior”, “no lugar mais difícil” etc., enquanto no graffiti percebemos a incidência muito maior de preocupações estéticas. Mas, na verdade, não existe uma linha clara que separe o graffiti da pichação.
A pichação é uma forma de comunicação marginal, cultuada por estudantes do mundo inteiro, durante os anos ‘60 e ‘70. ( O termo pichação vem de pichar, falar mal, xingar). No Brasil, durante esses anos revoltosos, conquistou uma certa simpatia e legitimidade ao se tornar um meio de protesto político, num período em que a ditadura se tornava cada vez mais repressora e hostil com qualquer tipo de liberdade de expressão. Rabiscar frases como ‘Abaixo a ditadura’, ‘Abaixo a repressão’, ‘O povo unido jamais será vencido’, ‘Fora CCC’… era uma das únicas maneiras de reclamar publicamente do ‘estado de coisas’ em que nos encontrávamos.
A partir dos anos ‘80, a pichação perdeu o seu status simpático e legítimo, mas não deixou de ser um veículo de forte impacto comunicativo e um meio de expressão com grande apelo lúdico. E pelo seu caráter ilícito, especialmente atraente ao jovem. Hoje, a pichação faz parte de uma categoria de exercício caligráfico, da qual faz parte o bomb e o tag, só para citar as mais famosas mundialmente. Embora raramente seja considerada manifestação artística, os métodos, a energia e a estética da pichação tem inspirado muito a arte contemporânea.
O graffiti que se pratica hoje ainda carrega consigo muito dessa energia contestatória, do espírito subversivo e da “falta de educação” herdada da pichação. Manteve sua aura política se associando ao Hip Hop e ‘combatendo as injustiças sofridas pela população de excluídos da periferia’. E, além disso, desenvolveu-se esteticamente. Atualmente existem trabalhos muito sofisticados, produções artísticas de qualidade estética inquestionável, dotando cidades como São Paulo, Tóquio, New York, Barcelona, Berlim, Santiago etc. de uma identidade cosmopolita, internacionalizada, cool, que não teriam sem essas interferências plásticas urbanas.
letra inspirada na caligrafia urbana tipicamente paulistana
O graffiti não perde a força quando é exposto num museu ou galeria?
A rua é um ambiente complexo, de paisagem variada, movimento constante, público aleatório e escala monumental. Quando um artista trabalha na rua, o faz em condições imprevisíveis, sob chuva, sol, com gente passando, opinando, xingando. O trabalho, depois de pronto é vivido dia após dia pelos passantes, até que alguém o apague ou seja consumido pelo tempo. Todas essas características fazem do graffiti, um gênero muito especial no universo da arte pública. Sem dúvida, o que melhor explora as incríveis possibilidades comunicativas contextualizadas no ambiente urbano contemporâneo.
Nos últimos anos tem surgido muitos artistas vindos da rua, trazendo consigo habilidades especiais, principalmente em pintura. Alguns têm também o talento da instalação, pois compreendem bem a linguagem dos ambientes. Outros possuem a capacidade de trabalhar em escala gigante, muralista. E quase todos se enveredam pela arte caligráfica, exercitando “assinaturas”, mais conhecidas como tags, trow ups, bombs ou pixos entre outros nomes.
Os artistas que se aventuram a mostrar seus trabalhos em museus e galerias são aqueles capazes de explorar outros suportes para as suas habilidades. Telas, esculturas, instalações, video arte, fotografia são alguns dos suportes mais usados. Os novos recursos e experiências técnicas e conceituais adquiridos no atelier não eliminam as habilidades conquistadas com a vivência na rua, pelo contrário, somam-se a elas. Certamente nem todos os artistas urbanos alcançam bons resultados explorando outros suportes, por outro lado, a arte urbana está ganhando muito com o desenvolvimento profissional do seu quadro.
Quanto aos museus, melhor do que tentar colocar a cidade dentro deles, seria abri-los para a arte que acontece a sua volta. Ou seja, levar a inteligência que eles reúnem para onde a arte realmente estiver ao invés de esperar que ela, obrigatoriamente entre pela sua porta, para então considerá-la. Quanto às galerias, seu papel principal é o de criar condições para que artistas possam viver da sua arte. Ou seja, comercializar a parte colecionável da obra de cada artista, mesmo que a outra parte esteja sendo apresentada na rua.
museu afrobrasil, 2007, exposição “território ocupado”
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