texto por Oscar D’Ambrósio*

      Nove é muito mais que um rapaz que sai do grafite para as galerias de arte. Isso pode ser explicado por nove razões. Primeiro, sua pesquisa de linguagem inclui diversos elementos, sendo o principal a necessidade visceral de se expressar pela imagem. Isso significa que cada obra, além da plasticidade, tem uma sutil narrativa embutida.

      Segundo, aparece em cada trabalho, feito com tinta acrÃlica e spray sob diferentes suportes, como telas ou restos de móveis, um constante pensar o espaço circundante como um universo em que o orgânico e o digital convivem nem sempre em rigorosa harmonia.

      Terceiro, ao se valer dos ocres e lixar vários tipos de madeira, Nove atinge uma linguagem que beira o conceitual, caracterizada pela idéia primordial de que fazer significa contar sempre uma história, própria ou alheia. Por isso, uma personalidade se instaura e cristaliza ao longo de uma breve trajetória.

      Quarto, alguns Ãcones que acompanham o artista, como os cubos, denunciam um diálogo com a geometria e a abstração que começa a ganhar corpo. Quinto, cada criação, mesmo as mais antigas, apontam para uma progressiva busca de uma liberdade no ato de fazer.

      Sexto, o amor do artista pela autonomia traz para si o desafio de se manter num processo de eterna pesquisa, num movimento perene pela busca de novas formas de dizer suas convicções por meio da pintura. Ocorre o desenvolver de um olhar atento, que recolhe pedaços de móveis em caçambas para expressar amores e desamores.

     Sétimo, existe uma confiança na arte como uma maneira de se posicionar perante si mesmo. Seja em mulheres de quadris largos e coxas amplas ou na figura de seu cão, ocorre o mesmo falar plástico, com escorridos de tinta, entendidos como uma constante reação ao que pode parecer acomodado ou muito ordeiro.

     Oitavo, é estabelecida uma conversa de surpreendente harmonia que propicia um constante pensar do observador sobre a vida como uma somatória de experiências afetivas cortantes e densas. Nono, a arte de Nove deve ficar sempre nesse número, pois na incompletude e angústia que faltam para chegar ao dez está o seu mistério.Â

      Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de CrÃticos de Arte (AICA- Seção Brasil).