Ao se observar as obras do artista plástico PJota, a primeira reflexão está no quanto uma imagem pode ser prazerosa enquanto universo de possibilidades visuais a ser desvendado como um desafio à capacidade de observação de cada pessoa que se propõe a contemplar o que lhe é apresentado.
Isso não significa uma postura passiva, mas sim o estabelecimento de um diálogo que passa por diversas instâncias. A primeira é desvendar o mundo de referências à arte renascentista que o artista coloca à nossa frente. Seja pela pintura ou pela colagem, há uma influência mútua permanente com a história da arte.
A presença do fundo branco é uma ilusão de minimalismo. O olhar atento nota a quantidade de interferências, como o uso de diversas letras, a existência de manchas distribuídas para atingir efeitos de composição e, acima de tudo, a instauração de uma densa mística no sentido de que cada imagem encontra o seu lugar.
Cada tela surge de uma espécie de necessidade interior. A gradual estruturação do trabalho é o resultado exatamente do amadurecimento de um processo de escolhas e articulações pictóricas em que a imagem cria a sua própria linguagem, negando-se a soluções fáceis ou sugestões de título que apontam para interpretações simplistas.
A grande questão que PJota traz em suas pinturas é a da ocupação do espaço da tela. Vazios e cheios se manifestam com personalidade, numa busca em que a imagem maior não é necessariamente a mais importante. Cada uma depende da outra para atingir o efeito desejado, numa prazerosa ação recíproca que revisita a história da arte, traz referências pessoais e revela uma progressiva consciência que a arte é um campo de atitude em que a felicidade pode estar presente.
Oscar D’Ambrosio, doutorando em Educação, Arte e História da Cultura na Universidade Mackenzie, é mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp. Integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA-Seção Brasil).

s/título, 2010 acrílica, lápis e colagem s/ tela 185 x 140 cm

detalhe
Referente a monografia do artista
Pelo contato próximo com a cidade comecei a perceber características gráficas e pictóricas presentes nas paredes e muros, decorrentes da ação do homem, que me interessavam não só pela carga imagética, mas também pela história e pelo porquê de tais marcas estarem presentes na cidade.
A ação do homem e as conseqüências criadas por ele sobre a natureza da cidade possibilitam a construção funcional, social, e estética, que transfiro para minha obra. Toda esta história criada através da escrita, desenhos e as texturas nas paredes, são registros do movimento do homem presente nos centros urbanos, tal movimento que se realiza em toda história da humanidade, desde os tempos mais remotos, como por exemplo na época em que homens habitavam cavernas.
Galeria Anno Domini, Califórnia 2009 (exposição individual)
O espaço comum do transeunte, que se locomove, diuturnamente, pela cidade, está sujeito a alterações gráficas ocorridas por suas próprias ações. A passagem do ser humano por locais sociais, pontos de ônibus, banheiros públicos e praças, muitas vezes deixa resquícios, como marcas de pés sobre paredes, escritas, rabiscos, colagens e mensagens, que sintetizam a história da humanidade. É importante salientar-se que estes resquícios, não estão restritos, apenas, a índices gráficos, porém, são estes que me despertam interesse.
Pode-se pensar tais índices como a forma “palpável” da atuação do ser humano sobre o local em que habita: a cidade e seu espaço transitório.
Desta maneira criei um vasto repertório referencial para a possibilidade de estudo sobre como estes índices são criados e quais as características plásticas e gráficas presentes nos mesmos.
A tipografia urbana, muitas vezes, se refere a nomes simplesmente feitos para marcar a passagem do cidadão por determinado local, algumas vezes anotações ou referências a pontos de tráfico de drogas ou prostituição e outras, apenas, marcas de um longo período da passagem do homem.
Tais letras e escritas carregam características únicas, como vemos em banheiros públicos ou muros. Interesso-me pelas escritas “despretensiosas”, toscas ou mau feitas, sem a importância do fazer artístico, muitas vezes, sem estudo sobre o desenho
Estas escritas funcionam como referencial em minha produção e as trago para o suporte em que atuo.
As manchas e texturas também são características comuns encontradas nas paredes da cidade. Algumas delas, muita vezes, contam a história do ocorrido em determinado local durante anos. Uma parede descascada com sobreposições de cores e camadas, além da qualidade pictórica, também mostra a ação do homem e do tempo sobre a superfície.Toda a carga histórica de uma parede que passou por diversas aplicações de tinta, por motivos que vão desde a mudança da cor pelo gosto do dono do estabelecimento, ou a vontade de apagar algo que traz lembranças indesejadas, gera uma série de camadas que impostas ao acaso do tempo se tornam grandes superfícies de textura.Assim sendo, a cidade permite um vasto campo de pesquisa que pode ser encontrado em meu trabalho, através de uma releitura do que se encontra nas ruas. As marcas brancas e as texturas que crio nas pinturas, são decorrentes deste estudo de campo.
Desta maneira o ato de apagar se torna construção em meu trabalho e não simplesmente eliminação de algo indesejado.

Galeria Anno Domini, Califórnia 2009 (exposição individual)
Ao mesmo tempo consigo identificar a diferença entre as marcas presentes na cidade e as presentes em meu trabalho, e os valores conceituais que ambas possuem. Não tento copiar o que estudo nas paredes e sim re-significar estas características dentro de um pensamento pictórico, que envolve minha obra. É importante entender que o que quero não é trazer os muros para dentro da tela, e sim estudar o que foi citado anteriormente, e buscar um modo de criar, a partir destes estudos referências óbvias, ou não, a plasticidade dos centros urbanos.Junto a estas características da cidade, trago ao trabalho a figuração. Figuração que tem como referência a anatomia “viciada” renascentista (viciada no sentido de que são poses comuns referentes a época), dentro do conceito histórico da própria história da arte, me aproprio da figuração e simbologia renascentista.
Transformando referências buscadas em esculturas e desenhos renascentistas, busco re-significar características comuns da época em que estes foram criados, e trazê-los ao universo contemporâneo e pessoal, “um modo de trazer a superfície do papel, um certo intimismo que resvala muitas vezes para o confessional, favorecendo as narrativas autobiográficas” (MORAIS, Frederico, Publicação da Galeria Nara Roesler número 1, 1995, pág.1).

s/ título - detalhe, 2010 acrílica s/ tela
Tais desenhos irão compor a tela, e transformar-se-ão em pinturas relativamente pequenas, minuciosas, e cheias de detalhes, que necessitam da aproximação do observador para serem contempladas. Tomo as palavras de Frederico Morais a respeito do desenho em “Doze notas sobre o desenho” para referir-me a pintura que “…ama o pequeno, a minúncia, o detalhe, as sutilezas gráficas e cromáticas” (MORAIS, Frederico, Publicação da Galeria Nara Roesler número 1, 1995, pág.2), uma pintura que é para ser lida “…. como um poema, porque ele capta e expressa um sentimento vago, mais inadiável” (MORAIS, Frederico, Publicação da Galeria Nara Roesler número 1, 1995, pág.2).

instalação em parede, 2008
Voltando a cidade antes citada, lembro do desenho como escrita, e forma de anotação não voltada para a arte. Prestando atenção nos registros gráficos diários, como anotações telefônicas, escritas de roda-pé entre outros, é possível achar um ponto de encontro entre a cidade, a residência, o papel, o muro (e no meu caso a tela). Todos estes são, sem intenção, local de inserção do desenho subjetivo, sem preocupação técnica. Frederico Morais faz citação a Antonio Henrique Amaral em “Doze notas sobre o desenho”, que traça um paralelo entre o desenho subjetivo e a pintura realista. Desta maneira, encontro em minha obra, tal paralelo referente a Antonio Henrique de Amaral, o desenho subjetivo e a pintura técnica.

Museu de Arte Contemporânea do Paraná, 2008
A figuração alia-se a escritas, desenhos e anotações diárias, “…o desenho fala, chega mesmo a ser muito mais uma espécie de escritura, uma caligrafia…” (ANDRADE, Mario, Aspectos das artes plásticas no Brasil, 1984, pág.65) e se por um lado é possível ver uma pintura técnica de diferenças tonais, luz e sombra, por outro, pode-se encontrar escritos e pequenos desenhos despretensiosos, soltos, feitos à lápis ou caneta.
