Rubens Matuck | Choque Cultural

Matuck na Choque


 

De 5 a 30 de Setembro de 2009

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Marly, Matuck, Farkas e Rosely na abertura

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detalhe da instalação

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Um mundo de transparências


 

texto por Oscar D’Ambrósio*

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O processo do fazer é uma fascinação constante na trajetória do artista plástico Rubens Matuck. Seja no lápis de cor, no nanquim, na aquarela, na tinta acrílica, na pintura a óleo, na gravura ou na escultura, ele consegue aliar a pesquisa técnica a um intenso mergulho na respiração de cada procedimento utilizado.

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      No conjunto a ser exposto na Choque Cultural, em setembro de 2009, ele toma como suporte painéis de madeira. Eles são encontrados em caçambas que abrigam lixo urbano, como portas ou gavetas. Esses elementos, com suas rachaduras e irregularidades, são plenos de significados para o artista.

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      A madeira é vista como um objeto cheio de vida e em eterna mutação. Afinal, aquilo que vemos de uma árvore, é apenas metade de seu mistério, pois uma parte, a que está embaixo da terra, fica lá escondida aos nossos olhos. Além disso, por condições de umidade e temperatura sofre alterações constantes.

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      A escolha da madeira, o uso da lixa, a presença do gesso, as folhas de prata e ouro, a pintura a óleo e o acabamento esmerado, mas que não congela o material, vistos sempre como algo em mudança, tornam as obras de Matuck uma indagação eterna, um estímulo ao inteligente existir.

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      Há  ali perguntas para o criador e para quem vê. As interrogações se multiplicam pela presença, por exemplo, das transparências, que levam a um constante pensar sobre o que é a arte e qual é o seu significado. Cada novo trabalho, nessa ótica, é muito mais que um elemento plástico.

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     As indagações começam na escolha de procedimentos e se disseminam. Uma série de Rubens Matuck é um caminhar entre as gentes. Seu andar plástico é uma reflexão permanente sobre como as mais diversas técnicas podem expressar o que existe de mais denso e visceral dentro de cada ser humano.

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     Ao criar seu mundo visual, Matuck estimula a nossa capacidade de olhar. Essas conversas entre o artista, sua obra e o observador ativo geram as mais variadas interpretações. Talvez a mais rica seja aquela que indica para um diálogo infinito em que conhecer cada painel de madeira estimula um ver renovado do mundo. 

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 Foto de Bia Nakagawa Matuck

 *Oscar D’Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).

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Lixo folheado a ouro


 

texto de Gilberto Dimenstein*

O artista plástico Rubens Matuck está conseguindo transformar lixo em ouro -e aqui não se trata de nenhuma figura de linguagem ou misterioso projeto de um alquimista.

Ele percorre as ruas em busca de madeiras jogadas nos entulhos. Depois de tratá-las, aplica em sua superfície folha de ouro. Deixa secar e, enfim, desenha em cima árvores. Não qualquer árvore. Só aquelas que ele plantou na cidade de São Paulo. “Minha paixão, desde menino, é plantar.” Essa paixão acabou germinando uma confraria paulistana que sai pelas ruas, nos finais de semana, plantando -um grupo que envolve zeladores, faxineiros, garçons e cozinheiros.

O prazer de Matuck com a flora é tão grande que, nas suas viagens pelo Brasil, ele vai registrando o que vê em cadernos. Ao todo, já montou uma coleção com mais de 300 desses cadernos, empilhados em seu ateliê-estufa. É um espaço que mistura suas obras e a criação de mudas.

As mudas criadas no ateliê-estufa são espalhadas entre os integrantes da confraria que, sozinhos ou em grupo, procuram espaços para o plantio. “Tem gente que trabalha em bar que ajuda a produzir adubo com pó de café.”

Já perdeu a conta de quantas plantou. “Talvez mais do que cinco mil.” Com o tempo e estudo, aprendeu quais as espécies melhor se adaptavam na cidade.

A confraria acabou ganhando ramificações. Pessoas de outras partes do Brasil passaram a trocar mudas com Matuck. “No rastro das trocas, vieram novas amizades e novos parceiros. Sinto-me, sem exagero, apenas uma das sementes.” Veio, então, a ideia de fazer um projeto mais radicalmente natural.

Matuck percorreu os entulhos atrás das madeiras descartadas para serem usadas em suas obras -e, aí, decidiu aplicar a folha de ouro para ver o que acontecia. Gostou e decidiu fazer uma coleção.

Natural, portanto, que Matuck escolhesse para expor sua obra um espaço em que artistas façam da rua, ao mesmo tempo, inspiração e galeria -preferiu uma galeria tomada por grafiteiros. “Pintar e plantar são, para mim, quase uma mesma coisa.”

O que significa que São Paulo não é apenas uma cidade, mas uma espécie de tela viva. Quando anda pelas ruas, sente-se como se estivesse em quadros que sempre mudam.

PS- Coloquei no meu site abaixo uma seleção das obras de Matuck, expostas no Choque Cultural -aliás, essa galeria é hoje uma das estufas dos artistas, muitos deles grafiteiros, que fazem da rua sua inspiração e paisagem. Baixo Ribeiro, criador da Choque Cultural, é um dos responsáveis pela disseminação, no mundo, da arte de rua brasileira.

Coluna originalmente publicada na Folha Online, editoria Pensata.

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