
Exposição individual de Daniel Melim na Choque Cultural. Alameda Sarutaiá 206, Jardim Paulista. Abertura: dia 2 de março, sábado, das 10 às 17 horas. Período expositivo: 2/3 a 6/4 2024. Fácil estacionamento. Na abertura: presença do artista Daniel Melim e da curadora Lui Tanaka.










Daniel Melim in: tensão expõe trabalhos do artista com quase 25 anos de carreira. Formado em educação artística pela FATEA (2002) e pós-graduado em Linguagens Visuais (2005), Daniel Melim vem participando de exposições coletivas e individuais no Brasil e no mundo afora desde 2001.



MASP, Pinacoteca do Estado de São Paulo, Museu Afro-Brasil, bem como AMBA Collection (Inglaterra) e Museo de la Solidariedade Salvador Allende (Chile) possuem obras do artista em seus acervos.


Seus trabalhos mais recentes são a exposição individual na Fundação Iberê Camargo (Porto Alegre) e um grande mural (Viena, Áustria). Daniel Melim ainda produz gravuras, fanzines e programas educativos na comunidade do Jardim Limpão, em São Bernardo, onde está localizado o seu estúdio.

Na exposição Daniel Melim in: tensão, o artista atinge a tensão máxima entre figurativo e abstrato, marca registrada da sua pintura. O elemento figurativo da sua pintura adquire aspecto realista, algo, até então, inédito em seus trabalhos.

Mas a tensão também está expressa na temática dos trabalhos, como na instalação Ato (2023), no qual os atos de violência e de negligência da democracia são colocados em oposição ao tema da justiça, que o artista menciona por meio do mito de Er, de Platão.
E nos outros trabalhos em que há, sempre, elementos em explícita oposição: a dualidade entre a feminilidade e o policialesco; a ironia do legítimo frango, que não é o de padaria; e até mesmo o vazio que permeia a relação dos casais pela ausência das presenças.







Há um verso de Safo (1) , de Lesbos, que diz assim: “sou pequena para alcançar o céu com as mãos” (2). E toda vez que me deparo com o fazer da curadoria, me lembro da poetisa de Mitilene. Uma sensação diminuta frente ao objeto artístico, sua aura e o conjunto que surge como aparição diante dos olhos. Aparição no sentido de fenômeno.
Eu não sou curadora. Mas, aqui em Daniel Melim in: tensão, exerço esse papel. Prefiro pensar assim, sem títulos e nomes que poderiam dar a ideia de algo muito maior do que, de fato, é a minha realidade ou, ainda, limitar o exercício do meu livre pensamento, que prezo tanto para olhar o objeto em si.
Esse texto é uma espécie de confissão. E confesso que toda vez que penso em Daniel Melim as palavras “gigante”, “gigantismo” e “gigantesco” vêm à minha mente. Talvez porque seu trabalho tem essa natureza descomunal: murais, muros, empenas cegas, telas de dois por dois e uma recente instalação realizada em lona de caminhão, frente e verso, de quatro metros de comprimento.
Também são grandes os que vieram antes de mim – Miguel Chaia, Emanuel Araújo, Emilio Kalil e Baixo Ribeiro – e que já escreveram sobre Daniel Melim (3) . De modo que se eu acrescentar uma vírgula sequer ao que já disseram e ir além, foi “por estar sobre os ombros de gigantes (4) “, sem dúvida alguma.
Foi a partir da observação de Miguel Chaia que tomei a decisão de reiterar o formalismo estrutural das composições de Daniel Melim nessa exposição. A divisão das pinturas baseada em blocos verticais, separadas por finas faixas, que o pesquisador também comparou ao cinema francês de cortes bruscos dos anos de 1960, a nouvelle vague.
E, pelo mesmo motivo, também optei por expor as telas da série “Impermanência” de forma justapostas, de modo a constituírem uma única tela. Uma espécie de mural no qual o visitante da exposição tem a sensação de um travelling, conceito emprestado por Baixo Ribeiro para definir como se dá a relação entre a obra de Daniel Melim e seu espectador.
O formalismo no trabalho de Daniel Melim é uma marca registrada do seu trabalho. E essa rigidez sempre incluiu o contorno das figuras, a fôrma (com “ô” mesmo) representada pelo stencil, o aprisionamento das formas por linhas e a delimitação geométrica (por retângulos e quadrados, geralmente em tons mais claros) de telas dentro de telas. Obras dentro de obras como souvenirs.
Chamo de souvenir porque se, porventura, um pedaço da tela for arrancado do trabalho, ainda assim, o detalhe permanece uma obra de arte, como um trabalho à parte. Por essa razão, na montagem da exposição, “Eles/Nós” (2023) e “Legítimo Frango” (2023) estão exibidas propositalmente sobrepostas.
Mas, chamo a atenção para o fato de que, apesar de todo esse rigor formal, Daniel Melim transgride a si mesmo. Depois de pronto, o trabalho é revisto novamente e novas texturas são adicionadas a ele: manchas, respingos, pinceladas, jatos de tintas, gestos de dedos, rabiscos, letras, números e/ou até mesmo o apagamento de tudo que foi feito anteriormente.
Trata-se de uma subversão. Mas também de um ato de composição. Os signos sozinhos nāo significam nada, como aprendemos em Saussure (5). O sentido é marcado pela diferença engendrada na oposição dos signos. Na tensão. E na oposição ou justaposição de signos, que é uma outra marca registrada na pintura de Daniel Melim. Uma intensão.
O sentido de sua pintura é dado, então, pela composição (oposição e/ou justaposição) de diversas linguagens e signos. E a cada uma delas, a cada bloco, soma-se outra, bem como às diversas camadas de pintura. Inclusive, onde supostamente há ausência do signo, como na mancha preta, por exemplo, a ausência de signo é um signo.
Mas, – antes que eu me esqueça! – toda confissão que se preze revela sempre um segredo. Se a pintura de Daniel Melim foi figurativa até o presente, ela nunca poderia ser chamada de realista, como pontuou Miguel Chaia na brochura “Reconstrução”(6). Todavia, houve uma mudança de paradigma. As pinturas da série “Impermanência” são figurativas e realistas. O vaso de rosas perdeu o contorno da linha preta.
Eliminar o contorno dos objetos, o limite da linha, mostra que Daniel Melim quer arranjar o vaso de flores assim como ele é contemplado pela visão “natural”. Porque a linha não pertence ao mundo visível, mas à geometria. O desenho resulta, então, apenas da cor e somente da cor.
São as cores vermelho, marrom e preto que mostram a massa, a espessura e todas as curvas das pétalas das rosas em “Tudo é Impermanência” (2023). A luz que toca o vaso e seus contornos também estão nessa relação com a cor, no qual vários tons de marrom organizam volume, sombra e luz.
A composição sugere algo que Merleau-Ponty (7) chama de “unidade imperiosa” ou “todo indivisível”(8) da pintura: um arranjo realizado pelo pintor para satisfazer uma infinidade de condições que trazem toda percepção do vaso em questão para a pintura.
Talvez, exatamente por adentrar o universo da percepção, Daniel Melim intuiu a impermanência das coisas. Porque percepção e impermanência são dados inseparáveis. E se há algo que se apreende com a pintura é que, por mais que o homem deseje ou pense que o mundo é inabalável, ele não o é, de fato. Tudo o que foi captado pela pintura, um segundo depois é desfeito pela própria fugacidade do tempo. Tudo é apagado pelo tempo.
Tudo é apagado. Tudo acaba. Tudo morre. E, talvez, em uma última confissão, reste a dúvida sobre a intenção do artista: se ele quis imortalizar sua rosa ou destruí-la de vez. Porque, recorrendo à técnica do apagamento, o que foi outrora pintado permanece na tela debaixo da camada de tinta, ainda que invisível aos olhos. Apagado? Acabado? Quem sabe?
Porque o que aparece diante dos olhos de quem contempla a obra é o todo. A obra de arte, o trabalho, a coisa em si. E a rosa apagada. E a rosa escondida por detrás da tinta. E o sentido da impermanência resistindo ali: a tensão entre vida e morte.
Tensão, intenção, intensão e sobretensão em Daniel Melim in: tensão.
1. Safo, Psafo ou Sapho (630 a.C – 570 a.C), poetisa lírica grega.
2. DE LESBOS, Safo. Poemas e fragmentos. Tradução Joaquim Brasil Fontes. São Paulo: Iluminuras, 2021. p. 77.
3. Textos do livro “Melim” (2018) e da brochura “Reconstrução” (2021), publicação para a exposição individual do artista, na Fundação Iberê Camargo.
4. Frase atribuída a Isaac Newton, matemático e astrônomo inglês do século XVII, retirada de uma carta para Robert Hooke datada de 5 de fevereiro de 1676. Na frase, baseada em uma metáfora atribuída a Bernardo de Chartres, filósofo platônico francês do século XII, Newton se refere aos “gigantes” Galileu Galilei e Johannes Kepler, seus antecessores.
5. Ferdinand Saussure (1857-1913), linguista e filósofo suíço.
6. Material para a exposição individual do artista, na Fundação Iberê Camargo, em 2021.
7. Merleau-Ponty (1908-1961), filósofo francês.
8. MERLEAU-PONTY, Maurice. O olho e o espírito. Tradução Paulo Neves. São Paulo: CosacNaify, 2024. p. 134.
Curadoria e texto: Lui Tanaka
