O programa De Dentro e De Fora, criado em parceria da Choque Cultural com o Museu de Arte de São Paulo, MASP, apresentou a arte urbana contemporânea para um público de 250 mil pessoas em seus quatro meses de duração. Mas não é “só isso”: o programa fez parte de um projeto mais ambicioso, coordenado pelo professor e curador Teixeira Coelho e apresenta seminários, cursos e intervenções urbanas, que acontece desde julho de 2009, à partir da exposição De Dentro para Fora De Fora Para Dentro, que apresentou, pela primeira vez no museu, a arte urbana brasileira, tão conhecida no mundo e pouco reverenciada pelas nossas instituições.

Segue abaixo, texto crítico do professor e jornalista Fábio Cypriano:
Arte urbana ou “street art” é uma dessas categorias forjadas para defender algum tipo de proposta artística. No caso, a arte criada nas ruas. Foi assim com a videoarte, por exemplo, que nos anos 1980 ainda não tinha espaço garantido dentro das galerias e museus e, por isso, merecia mostras específicas. Hoje, mesmo um festival como o Videobrasil deixou de se dedicar apenas à videoarte, já que essa linguagem se inseriu no circuito.
“De Dentro e de Fora”, em cartaz no museu de arte de São Paulo (Masp), aponta que a chamada arte urbana está no mesmo caminho, pois pode ser simplesmente vista como uma ótima mostra de arte-contemporânea. Com curadoria de Mariana Martins, Baixo Ribeiro e Eduardo Saretta – donos da galeria Choque Cultural, a exposição traz nove artistas. Oito deles são estrangeiros, ao contrário da primeira edição, composta principalmente por brasileiros.
Montada no monumental hall inferior do museu, a exposição aponta como esse grupo de artistas deu conta de ocupar o espaço sem simplesmente mimetizar o trabalho de rua, em geral o local e a origem dos artistas. Um dos melhores exemplos é o artista Tcheco Point, que criou um conjunto de objetos tridimensionais interativos, mas que vistos de cima representam as letras que formam seu próprio nome. No conjunto, tal obra lembra tanto uma praça pública como um dos famosos penetráveis de Hélio Oiticica. Assim, não há mais contradição entre dentro e fora, como se no externo a ação fosse sempre algo próximo da ilegalidade e no interno a sua cooptação.
Outro bom exemplo é a obra do francês JR, que espalha imensas imagens em locais de públicos de várias cidades, seja nas margens do rio Sena, em Paris, seja numa favela carioca. A documentação dessa ação, contudo, que é o que se vê na mostra, não é um mero registro, mas filmes que valem por si mesmos. Claro, nem todos os trabalhos conseguem alcançar esse balanço, como as intervenções com azulejos do francês Invader, que estão espalhadas tanto nas ruas da cidade – algumas já até eliminadas – como em alguns espaços do próprio museu.
Mas, afinal, obras como essa são a memória da origem: a busca por transformar o espaço urbano.
Felizmente, elas também representam a transformação do museu.
(Texto escrito pelo professor e crítico de arte Fabio Cypriano sobre a exposição De dentro e de fora, para o jornal Folha de São Paulo em 2011).






