POPPOOR individual JACA na CHOQUE

POPPOOR é o título da exposição do artista Jaca, que acontece na Galeria Choque Cultural, de 26 de abril a 31 de maio, com suas mais recentes pinturas, além de trabalhos inéditos, em suportes mais inéditos ainda, que ficaram guardados no ateliê do artista e nunca foram exibidos ao público. A mostra tem curadoria de Lui Tanaka, que subverteu o conceito do cubo branco em POPPOOR para questionar os modos de ver do visitante da exposição:
“Hoje, como os olhos estão sempre voltados ao celular e, por conseguinte para o piso, é preciso repensar o modo expositivo. E, também, questionar o estatuto estético que se dá às paredes das galerias. Quem deve comandar a contemplação da obra de arte é o olho, se o desejo é que as obras sejam, de fato, vistas. O homem erectus da cultura pop é o homem que não contempla mais o horizonte, mas tão somente o chão e as suas próprias construções e representações! Daí o papel do artista que, como um arqueólogo, escava os terrenos da cultura de massa, à procura desses signos identitários, onde está “tudo junto e misturado”. Talvez, buscando não o que fomos outrora, mas o que somos, hoje, aqui e agora, gente pertencente à cultura de massa, numa sociedade de consumo, globais, soterrados pela virtualização midiática e, ainda assim, historicamente brasileiros”, comenta a curadora.


Jaca nasceu Paulo Carvalho Junior em 1957, em Porto Alegre (RS) e, atualmente vive e trabalha em São Paulo, capital. Jaca começou sua carreira em 1978, como ilustrador para jornais e revistas. Primeiro, para publicações gaúchas como Folha da Tarde, Diário do Sul e Zero Hora e, mais tarde para impressos de todo país, como O Estado de S. Paulo, Veja e Playboy, entre outros. Colaborou, também, com as revistas de quadrinhos Dumdum, Animal, Big Bang Bang, Flag e outras. E com a publicação francesa Le Dernier Cri.



Em 1991, Jaca ganhou o Troféu HQ Mix na categoria “desenhista revelação“. Atualmente, Jaca se dedica à pintura, participando de diversas exposições coletivas e individuais e, criou um imaginário muito específico que serve como fonte das histórias que vai narrando a cada desenho, pintura ou imagem digital que apresenta. Esse universo representa espaços urbanos e arquitetônicos nos quais acontecem cenas/situações inusitadas das quais emergem personagens fantásticos e mundanos.
























Texto curatorial por Lui Tanaka
O título POPPOOR foi inventado pelo próprio artista, Jaca. Um neologismo que pode fazer você se
lembrar tanto da Pop art inglesa dos anos de 1950, quanto do que surgiu na década seguinte, com o
icônico Andy Warhol, nos Estados Unidos. Bem como da Arte Povera italiana, batizada pelo curador
Germano Celant1, no final dos anos de 1960.
Esta exposição que a Choque Cultural realiza, agora, de abril a maio, contém as pinturas mais
recentes do Jaca, mas também obras inéditas, em suportes inusitados, que ficaram guardadas no
ateliê do pintor, sem nunca terem sido mostradas ao público.
Durante sua visita à galeria, você vai se lembrar de muitas coisas. E outras referências vão vir à sua
mente. Porque a cultura “pop” é uma cultura de referências. Uma cultura que emerge de uma série
de símbolos, signos e imagens identitárias, que se repetem de tempos em tempos.
E a arte “pop”, na qual a arte de Jaca está inserida, esse modelo de referências se repete e não deixa
de ser, também, uma espécie de “remix”, que se atualiza a todo instante, mixando as relíquias do
passado com as imagens do presente e os sonhos de futuro.
Daí o papel do artista que, como um arqueólogo, escava os terrenos da cultura de massa, à procura
desses signos identitários, onde está “tudo junto e misturado”. Talvez, buscando não o que fomos
outrora, mas o que somos, hoje, aqui e agora, gente pertencente à cultura de massa, numa
sociedade de consumo, globais, soterrados pela virtualização midiática e, ainda assim,
historicamente brasileiros.
Mesmo sendo brasileira, quando olhei as telas do Jaca, a primeira coisa que eu pensei foi na pintura
On the Balcony, de Peter Blake2. Talvez por conta do cenário chapado, com todas as personagens
olhando o espectador da tela. Ou porque as personagens de Blake lembram as de Adults Only
Parky3. Ou, ainda, porque no quadro de Blake há uma revista “Life”, que me fez lembrar na hora, do
“zine” do Jaca.
Outra referência da Pop art que também não pude deixar de recordar foi Ajax, de Thomas Bayrle4,
que representou operárias como jogadoras de pebolim. Primeiro, pelo senso de humor satírico que
existe nos dois artistas. Depois, pelas cores primárias, amarelo e vermelho, que também estão nas
personagens principais das telas Canhota e Fantasma do Falecido, do Jaca. E, por último, por
perceber que, como em Bayrle, na pintura de Jaca tudo é proposital!
No trabalho do Jaca, o preenchimento dos rostos das personagens, os objetos de cena, a inclusão
de detalhes (chapéu, boné, cadarços etc.) e a inserção de textos é sempre deliberada. Pensada. Um
processo no qual o desenho vai ganhando a perfeição ou a “imperfeição” desejada pelo artista.
Porque primeiro a tela é desenhada, ou melhor, milimetricamente desenhada. E somente depois do
desenho acabado, ela é preenchida com tinta.
A paleta de cores do Jaca transcende a paleta da Pop art. E eu poderia ousar dizer mais ainda: há
quase um abuso da cartela de cores. Isso porque não há qualquer compromisso do pintor – como
tinham os artistas do movimento da Pop art – com as cores primárias presentes nos anúncios de
publicidade que atuavam como uma espécie “gabarito” da arte “pop”.
A arte de Jaca não tem gabarito algum. O que existe no processo de criação do artista é um
preciosismo no processo criativo. O que é totalmente diferente. Então, primeiro a tela é desenhada
e, somente depois detalhada, ela é pintada, repito. Para daí, a sua arte ser “salva” ou descartada.
Descartada como qualquer elemento do consumo da cultura “pop”.
Mas o artista também faz o processo inverso, reciclando e ressignificando objetos que encontra na
rua para lhes dar o estatuto de arte. O mesmo estatuto de arte que garantiu para a Arte Povera dar
aos objetos do universo prosaico seus ingressos para museus e galerias. E que no caso específico
do Jaca, aqui, soma-se ao imaginário do pintor, que flerta com todo o panteão da cultura popular
brasileira.
Coisa que abarca as fantasias mal ajambradas dos circos que ocuparam nalgum tempo os terrenos
baldios que já não existem mais, as pelúcias de prendas dos parquinhos de bairro, os figurinos da
programação de televisão aberta, os brinquedos toscos de plástico vendidos nas feiras livres, os
grafites feitos às pressas nos muros da cidade, as personagens das revistas em quadrinhos das
bancas de jornal e todo tipo de comércio popular.
Em Nostalgia Azul, Motor Racin, Niemayer Motor, Excerto Cop e Despoluidor, também existe algo
no traço do pintor que rememora os carrinhos de brinquedos educativos de madeira produzidos manualmente pelos dos artesões populares. Assim como seus trabalhos Replastificador e Amigos
para Beber evocam os olhos do pintor que também um dia olhou nos olhos das pinturas “sem título”
do alemão, André Butzer5. Essas que têm um olho que é um ovo dentro de um ovo.
O título da obra 100% feitos de outros artistas não poderia ser mais “pop”: a referência dada pelo
próprio artista a outros artistas. Tudo que veio antes e tudo que virá depois. Por isso mesmo, deixese
levar por cada pintura aos lugares que sua mente evocar nessa exposição. Porque POPPOOR
pede exatamente que você faça das obras de Jaca algo “para chamar de seu”. Então, entre, lembre,
relembre e fotografe. Faça sua “self”. Faça seu próprio remix. Tudo isso é seu, tudo isso é “pop”!
1 Germano Celant (Gênova, 1940 – Milão, 2020), curador e crítico de arte que cunhou o terno Arte Povera. Foi diretor artístico da Fundação
Prada de 1995 a 2014.
2 Peter Blacke, On the Balcony, 1955-1957, óleo sobre tela, 121,5 x 91 cm, Tate Collection, Londres.
3 Jaca, Adults Only Park, acrílica sobre madeira, assemblagem, 43 x 34 cm, Choque Cultural. São Paulo.
4 Thomas Bayrle, Ajax, 1966, óleo sobre madeira, 222 x 105 x 12 cm, Museu de Arte Moderna, Frankfurt.
5 André Butzer (Stuttgart, 1973 – Rangsdorf, atual), pintor alemão representado pela Galeria Max Hetzler, de Berlim.


