Vira-lume: individual da artista Flávia Itiberê na Choque Cultural

Flávia Itiberê nasceu em Curitiba, em 1984, e passou a infância entre a cidade paranaense e La Plata, na Argentina. Foi na convivência com a avó, entre sessões de costura e passeios pelos armarinhos da cidade, que Flávia tomou gosto pelas linhas, tecidos e bordados. A mãe fazia doutorado no Museu de Ciências Naturais de La Plata, enquanto avó e neta brincavam e faziam arte. Em alguns anos, Flávia estaria trabalhando no setor têxtil. Primeiro, em seu próprio ateliê no centro histórico de Curitiba, aplicando seus conhecimentos em designs exclusivos e autorais; depois, em grandes empresas, como a Hering, lidando com fornecedores na China, Índia e Bangladesh, e desenvolvendo produtos industriais para consumo massificado. Graduou-se em design de moda, pós graduou-se em modelagem industrial e deu aulas em Universidades. Tem saudade da sua produção acadêmica, porém desiludiu-se com o mercado de consumo “que gera desejos artificiais e, também, muito lixo”, segundo as palavras da artista.

Flávia foi migrando lentamente da moda para a arte, colaborando cada vez mais intensamente com o pintor Rafael Silveira, com quem divide também a criação de Amanda, filha do casal. Desde 2017, a partir da exposição Circonjecturas apresentada no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, a parceria aprofundou-se, a ponto de Flávia produzir uma grande instalação imersiva que tomava conta de um espaço generoso da exposição, uma espécie de “sala especial” dedicada aos trabalhos da artista.
Parte das obras foram produzidas com uma técnica própria, que inclui o uso de entretelas, bastidores e outros instrumentos; e na qual as linhas se cruzam, se colam e se amarram para formar tramas com vazados mais e menos abertos, texturas e desenhos com traços de diferentes espessuras.
As imagens, que essas complexas tramas definem, são quase sempre a de figuras femininas, mitológicas, ou ícones extraídos de um imaginário que Flávia divide com Rafael. Nele, compreende-se um vasto campo de referências que vão do universo da tatuagem às ilustrações de história natural, botânica e da fauna fantástica dos gravuristas renascentistas; do universo pop e urbano de cartoons, sci-fi e graffiti ao Art Nouveau; dos padrões gráficos de um William Morris às sinuosas linhas de um Victor Horta.
As dez obras expostas na sala especial poderiam ser apreciadas independentemente umas das outras, dada a personalidade tão bem definida de cada uma delas. Ainda assim, na proposta para Circonjecturas, as peças foram instaladas e iluminadas de modo que suas sombras, projetadas no espaço expositivo, criassem uma outra narrativa paralela e complementar à das dez peças por si só. As sombras fundem-se e redesenham o espaço em diálogo – quase expressionista – com a arquitetura. Os traços delicados, definidos pelos fios no interior de cada peça, contrastam e diferenciam-se das suas projeções amplificadas em traços grossos e graves nos planos do entorno. A artista consegue uma exploração do território expositivo ao mesmo tempo delicada e expansiva.
Algumas obras são sustentadas por fios que as prendem no teto e sua composição é complexa, formada por um conjunto de objetos flutuantes que se relacionam, como os olhos que orbitam a figura feminina de Menina dos Olhos ou as notas musicais que tremulam ao lado de Flamingophone. Da obra Aracnídeas, fios soltos escapam e escorrem pelo chão, juntando-se a um imenso emaranhado de lãs e linhas que acabam por forrar grande parte do piso nessa área expositiva e potencializam a ocupação do espaço, em seu caráter imersivo.
Em Flor ou Fato, Sketchbirds e Tecelã, a presença da moldura define um espaço específico de visualização das obras, mas essas molduras finas enquadram as figuras em um sanduíche de vidros transparentes. Ao fim e ao cabo, são elas traços riscados no ar, desses retos e precisos, que se contrapõem aos traços orgânicos das peças desenhadas pelos têxteis. A intenção da artista fica mais explícita e ganha novos contornos com o trio de obras Bastidores da Mente, nos quais o desenho da moldura é figurativo e curvilíneo, insinuando a silhueta de um rosto de perfil. Preenchido por tecidos e rendas sobre os quais são costuradas e bordadas outras figuras, tal desenho acaba por gerar sombras mais sólidas e definidas, que é, em outras palavras, uma ampliação do vocabulário oferecido pela artista na lida com essa mídia incomum que escolheu para dar fluidez à sua verve expressiva.

Esse foi o momento em que floresceu uma artista decidida, inspirada e potente. Sua autonomia viria, ainda aos poucos, com as exposições seguintes, com o trabalho e a experimentação intensa, vibrante, cheia de descobertas e invenções. Ao mesmo tempo em que a artista vai aprofundando o domínio técnico, intensifica sua busca por novas expressividades e elaborações das linguagens com que está lidando. Na instalação Peixe Fora D’Água, apresentada em exposição no Centro Cultural Fiesp em São Paulo, em 2018, aparece uma vontade – ainda incipiente – de construções tridimensionais, algo que reverbera da pulsação das obras de Ernesto Neto, uma das influências permanentes no trabalho de Flávia Itiberê.
Noutro desdobramento da pesquisa com agulhas e linhas, Flávia busca uma direção oposta à das suas pesquisas sobre o desenho, o traço e as construções lineares. Ao invés das tramas abertas e dos fios soltos no espaço, Flávia passou a fazer alguns bordados espessos sobre tecidos opacos, como acontece em Primavera, peça de bordado sobre linho, e na densa série de retratos Tempo Precioso, Flora, Me Corta o Coração, La Dolce Vita, Raízes e Devaneio. Usando muitas tonalidades de fios, bordando e rebordando sem deixar aparecer o tecido de fundo, sobrepondo camadas e camadas de linhas até criar formas avolumadas, Flávia abandona, aqui por completo, o desenho. As cores tornam-se os elementos formativos das figuras e eliminam a necessidade do traço a demarcar contornos. Surgem sfumatos, claros-escuros e meios-tons. Surge uma espécie de pintura através do bordado, ecoando o apreço que a artista nutre pelos artistas pontilhistas, pelos impressionistas em geral e, em especial, pelo Van Gogh das grossas e espessas pinceladas que se sobrepõem convulsivamente nas paisagens noturnas e diurnas.
Flávia corajosamente transita entre extremos opostos, tentando capturar momentos de revelação que acontecem apenas em choques de contrastes realmente impactantes: transparências e opacidades; desenhos de traços definidos e massas de cores sem contorno; visualizações focadas em detalhes miniaturizados e impressões de escalas agigantadas; leveza de figuras aeradas e suspensas e escuras sombras que trazem pesadas atmosferas ao ambiente. São contrastes que sugerem estressantes tensões, insolúveis e crescentes, e, ao mesmo tempo, reflexivas gentilezas, oferecidas pelo trabalho manual empenhado, delicado e, definitivamente, cativante.













Exposição Individual de Flávia Itiberê
Abertura: sábado, 23 de julho de 2022
Em cartaz de 26 de julho a 27 de agosto 2022
Choque Cultural – Alameda Sarutaiá, 206 – Jardins
Horário de funcionamento: terça a sábado das 11 às 18hs
